segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ligações inéditas mostram ameaças de marido a cabeleireira



Um crime passional chocou o Brasil esta semana. Em Belo Horizonte, um marido matou a mulher a sangue frio. A vítima vinha fazendo seguidas queixas à policia, mas o marido continuou solto. Por que?

Nas fotos da família, a lembrança de um casal. Se vê sorrisos apaixonados que escondiam um relacionamento conturbado como mostra uma ligação inédita obtida pelo Fantástico:

Fábio: - para de atravessar meu caminho, para! Para! Eu tô pedindo para parar.

Islaine: - que loucura!

Fábio: tô te avisando, cê ta querendo que “contece” uma desgraça.

Islaine: eu não to querendo nada disso.

Fábio: - cê ta querendo.

Islaine: - para de me ameaçar.

Ele: Fábio Willian Soares, 30 anos, borracheiro. Ela: Maria Islaine, 31 anos, cabeleireira. O romance começou em 2003. Na época, eles foram morar em um quarto, na mesma casa onde a família do rapaz vive há mais de 30 anos.

“Ela já avançou nele com garfo .Em todos lugares em que eles iam, eles brigavam.“, conta a irmã de Fábio, Luciana Soares.

Um ano depois, eles se mudaram para um apartamento na mesma região, mas as brigas continuaram.

Islaine: - Eu fui trouxa e caí numa armadilha sua.

Fábio: que armadilha? Que armadilha? Não é armadilha nenhuma!

Islaine: fala baixo. Fala baixo que os vizinhos já estão cansados também.

Com medo do ciúmes de Fábio, Islaine quis se separar.

Islaine: você tá obcecado pelo seu ciúme, pela sua doença. Não tem jeito com você mais.

Ele ameaçava:

Fábio: - eu não vou aceitar perder minha casa.. eu to te falando .. se eu perder, você vai pra debaixo da terra. Se eu perder minha casa, eu vou te matar.

O imóvel citado por Fábio nas ligações é um apartamento que fica em um condomínio popular na zona norte de Belo Horizonte. Eles viveram no local por quase cinco anos, mas depois da separação, a Justiça determinou a divisão de bens. Segundo parentes da vítima, a partir daí, as ameaças do borracheiro se tornaram mais freqüentes.

Ao longo de dez meses, a cabeleireira registrou oito queixas na polícia. Um dos documentos obtidos com exclusividade pelo Fantástico informa que, no fim do ano passado, Fabio jogou uma bomba no salão onde Islaine trabalhava. No portão, ainda é possível ver a marca da violência.

“É um crime de explosão que tem uma pena altíssima. Então, é difícil de saber por que com todas essas reincidências de ações, possivelmente, deveria ter sido decretada essa prisão preventiva“, argumenta a defensora pública Silvana Lobo.

Na quarta-feira passada, as imagens das câmeras de segurança do salão de beleza chocaram o país. Elas mostraram o momento em que o borracheiro entrou armado. Ele parou na frente da ex-mulher, apontou a arma e atirou. Foram nove disparos que atingiram os braços, o tórax e a cabeça de Islaine.

“O primeiro tiro que ele deu, eu já sai correndo. Fui para a mercearia chamar a polícia. Para mim, parecia que eu ia morrer também, porque ele disse: ‘fica ai’ e colocou o braço em mim, mas eu sai correndo”, diz uma das testemunhas.

O atirador escapou em seguida. Um dia depois, foi preso no interior e transferido para a capital.

“Foi falta de material humano, seja do judiciário, seja da polícia judiciária, seja do Ministério Público, porque não tem efetivo para tratar desse assunto”, defende o advogado de Fábio, Ércio Quaresma.

Pela Lei Maria da Penha, Fábio não poderia se aproximar de Islaine, mas a borracharia ficava há menos de 50 metros do local onde trabalhava a ex-companheira.

O Fantástico teve acesso aos três pedidos de prisão feitos pelo advogado da vítima. Nenhum foi aceito. “A culpa pela série de crimes, de violência doméstica que não são apurados e que as vítimas continuam sendo agredidas. Ai sim, a culpa é do poder público”, argumenta o advogado da família de Islaine, Fernando Nascimento dos Santos.

Dados da Central de Atendimento à Mulher mostram que o número de relatos de violência cresceu 25% em 2009 na comparação com o ano anterior. São Paulo é o estado que tem maior número de registros, seguido pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais.

“Não adianta a lei determinar uma distância de 200, 300 metros, um quilômetro, que o agressor fique da vítima, porque nós não temos como fazer essa fiscalização”, ressalva Silvana Lobo.

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